Uma pergunta inicial para tratarmos da serenidade poderia ser: o que é a serenidade? Certamente que essa resposta, por si só, não mostra a fisionomia dela. A resposta também não pode, de igual modo, tornar manifesta a serenidade em nós.
Isso acontece por uma simples razão: a serenidade não se dá dentro de um conceito. Ao contrário disso, ela se faz quando abandonamos a busca pelo sentido conceitual. Quando largamos a vontade de definir a serenidade, já começamos a serenar.
Como se pode ver, já nos avizinhamos dessa experiência. Vamos entrar na toca do coelho?
Gelassenheit: A Beleza da Permissão
Heidegger, em muitos de seus ensaios, mostra que a serenidade é um modo de se permitir e não um modo de se provocar. O termo que o pensador utiliza é Gelassenheit. Ele vem do sentido de “deixar”, “soltar”, “largar” e permitir com que algo, em seu modo de ser, se manifeste.
O termo Gelassenheit diz de algo que se mantém em suas possibilidades sem ser constrangido. E nisto mora a beleza da permissão: do deixar algo em seu repouso essencial.
O Constrangimento do Desejo e a Pressão dos Entes
O fato de desejarmos algo, de querermos tomar posse de coisas para uso e fruição, nos coloca sempre diante de um ter de constranger aquilo que desejamos. Mas, do mesmo modo, somos constrangidos na medida do desejo.
O nosso desejo é a medida do constrangimento. Queremos algo e, no mais das vezes, só descansamos quando a coisa está sob nossa posse. No entanto, é aqui que entra a tensão entre o querer e o deixar ser.
Sim, podemos querer e devemos querer. Mas o querer não deveria ser capaz de modular os nossos afetos em relação ao mundo. Afinal, se isso acontecer, seremos os mais sofríveis escravos dos muitos desejos. Os entes desejados nos cativarão em seu interior e nós, frágeis desejantes, seremos os seus vassalos.
A Prática do “Sim” e do “Não” Simultâneos
A solução que a experiência da palavra serenidade nos oferta é a de um simples “deixar em repouso” (Lassen). Deixar o ente no repouso de sua essência. Deixando o ente em repouso, também repousamos nós os nossos desejos.
Deixar, neste sentido, não significa largar mão de forma desleixada, mas assumir o desejo e depois deixá-lo no repouso de sua essência. Nisto se dá o ser sereno.
Para ilustrar essa atitude, pensemos no exemplo prático:
- Não devemos negar o desejo. Se desejo comer chocolates, eu assumo: “Sim, eu quero o chocolate!”.
- E, ao mesmo tempo, eu me permito dizer: “Não, não vou comer o chocolate agora!”.
Essa atitude de dizer SIM e NÃO ao mesmo tempo é o que Heidegger compreendeu como um modo de ser sereno diante do ente que, em seu ser, nos constrange.
Habitar e Desabituar do Constrangedor
Para finalizar, gostaria de apontar para uma palavra fundamental: habitar. Trataremos sobre ela com maior profundidade em outro momento, mas quero introduzi-la agora para orientar o seu caminho ao habitar a serenidade.
Quem habita, habita sempre o habitual. Se em algum momento nos dermos conta dessa força constante, poderemos nos desabituar de certos modos automáticos: o de corresponder irrefletidamente ao desejo em seu constranger. Trata-se de romper com o automatismo calculado que nos faz pegar as coisas e agir sem reflexão. Tentemos, tudo bem?
Que possamos repousar na essência. Que permitamos serenar diante dos desejos que nos inquietam e que sejamos capazes de habitar a serenidade, para não permitirmos ser escravos e constrangidos pelas coisas do mundo.
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