Esta coisa que está aí diante do espelho, que tu acreditas ser, nada mais é do que uma figura oca. Uma figuração. Isto que estás sendo e a ser, tem te contornado. Não escutas, mas uma existência inteira vive te conclamando — vida que te concita enquanto mergulhas entorpecida nas vidas alheias. Simulacros de vidas não vividas. Não vivas. Não vibrantes. Essas que visas enquanto arrastas o polegar para cima.
Me permita — por um breve instante — ajustar as cordas dos teus afetos. Sinto que precisas disso. Meu espírito de poeta requisita a atenção dos teus afetos. As próximas linhas conversarão com tua alma. Mas antes, em função de habitarmos — eu e você — um horizonte de sentidos existenciais, se faz necessário realizar uma subversão da vida.
A Tragédia e a Pulsação da Existência
A vida parece ser isto — um experimento físico. Um punhado de terra formoseado em contornos. Isto aí que vaga de lá para cá, em meio à atmosfera, entre primaveras e verões, invernos e outonos. Vida parece ser isto que vaga sob a luz do sol e no sombrejo da noite. Esta coisa que dói machucando e se machuca por um prazer a mais. Que enruga sobre a terra que participa no corpo do mesmo modo que do corpo se esvai.
Para uma vida assim, trágica, dolorida e pulsante, há uma existência. Viver é um modo de existir. Pode-se viver de diversas maneiras; existir só de um modo.
- Existência é vibração: É isto que vibra tonalmente.
- Existir é poder ser: É ser quem se é, no modo do poder ser.
- Redundância Vital: É redundar sempre e a cada vez. Uma vez mais poder ser e, sendo, poder permanecer.
Vida é um modo da existência. O existir é tudo! E existir é isto que te falta. Te falta existir.
O Desafio do Eterno Retorno: Quererias o Mesmo?
Sinto muito jogar com as palavras, mas preciso esgarçar os termos e lançá-los aos sentidos. Toparias repetir, infinitas vezes, essa vida que vivestes até aqui?. Um eterno retorno das mesmas escolhas. As mesmas sensações, vibrações, conexões e afins.
É isto que queres uma vez mais por toda eternidade? Um eterno retorno do mesmo?. O mesmo não é o igual. O mesmo é o único. Como te sentes com isso? Este pensamento te apavora? Se sim, é hora de existires toda existência que pulsa obliterada em ti. Tomas a ti uma vez mais e não permitas desperdiçares teus dias do modo como tens feito. Há em ti uma existência não existida, ainda.
A Extensão das Mãos contra o Entorpecimento Digital
Assumas e não fugas de teu entorpecimento. Olha para teus braços e vê a extensão deles. Olha para tuas mãos e vê o que há dentro delas. Teu polegar e teus dedos. Olha para o que é extensão de tuas mãos: teus braços e os milhões de abraços que te esperam. Tuas mãos e os apertos conciliadores entre vidas e mundos, entre guerras e apaziguamentos.
Tuas mãos que suportam teu queixo enquanto o polegar afaga teu rosto em cada franzir da tua testa. Esta é uma existência de ti e teu ser, da qual ainda não te apropriastes. Sabes por quê? Porque tuas mãos e teu polegar permanecem entorpecidos, arrastando para cima os simulacros de outras existências não existidas.
O Salto Sereno para o Encanto
Assumas teu entorpecimento, afinal ele pode ser o teu salto sereno, em paz e leve. De há muito já perdemos aquela sublime capacidade de nos atermos ao que nos atém como vigor de encantamentos. De carência em carência, os encantos do existir subjazem na inanição, esquecidos.
Mas é precisamente por sua causa — que é causa de ti e, ao mesmo tempo, causa de nada — que podes experimentar o encanto. Podes experimentar existir toda a existência que hoje te escapa pelo polegar. Há, diante disto, todo aquele espanto mágico e criador que perfaz as primeiras experiências do pensar.
Pensar enquanto dom, doação para auscultar. Em cada ausculta, uma celebração endereçada a ti. Que seja celebrativo cada por e propor das tuas escolhas, estas que repetirás por toda a eternidade. Te avias, então, devagar e com profundidade afetiva. Não esqueças dos pensamentos íntimos que só a ti concitam. Visa-os com olhos e polegares delicados.
Mas, não te apresses.
Recife, primavera aos 28/11/24
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