Logo após o café da manhã, me dirigi ao canto de minha meditação. Um lugarzinho na varanda onde há um comprido banco relativamente confortável. Neste lugar, de costas para o espaço aberto vendado por uma longa cortina, todos os ruídos da avenida me chegam. Mas não me incomodam.
IDemoro ali, contemplando e pondo-me à disposição do aberto. Ao final da contemplação, com a mente serena, habito algumas das sabedorias orientais.
Um livro em especial é O Coração da Compreensão, de Thich Nhat Hanh. Um monge vietnamita que, neste opúsculo, realizou vários comentários acerca do Sutra do Coração. Tenho me dedicado a ele nos últimos meses.
Habitando o capítulo cinco do livro, meditei um pouco mais nas seguintes palavras: “Nada pode nascer e, também, nada pode morrer”.
Essa é realmente uma estranha afirmação para nós. Parece contradizer nossa cotidianidade. Isso porque nos ocupamos mais com a morte, fugando, do que assumindo a finitude. Heidegger nos mostrou isso muito bem.
Mas em que sentido nada nasce e nada morre?
Thich Nhat Hanh diz: “Morrer significa que de alguma coisa você se tornou nada”. Para algumas tradições budistas, a noção de tornar-se nada é uma criação de nossa mente amedrontada.
Nós não morremos. O que é não pode se tornar nada. Tudo o que é deixa de ser do modo que é para vir-a-ser de outro modo. Não vir-a-ser nada. A existência “é” continuidade. Ela poderá assumir outras formas de ser…
O monge ilustra com o exemplo de que a folha de papel não pode ser destruída a ponto de nada mais ser. Se queimarmos uma folha de papel, ela se transformará em fumaça e cinza, mas nunca em um nada absoluto.
E nós, humanos? Heidegger dirá que seremos no modo do devir-memória. Mas Thich Nhat Hanh diz:
“Amanhã eu continuarei a existir. Mas você terá que estar muito atento para me ver. Eu serei [no modo de ser] uma flor ou uma folha. Estarei nestas formas e direi ‘Olá!’ para você. Se estiver suficientemente atento (desperto), você vai me conhecer, e poderá me cumprimentar em retribuição. Eu ficarei muito feliz”.
Não é reencarnação; é devir-continuidade. É devir já-sido noutros modos de ser.
Feliz continuação!
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